(E desligar brevemente a arte e redes sociais)

Eu não sei vocês, mas eu me sinto constantemente exausta. Acordo vou até a cozinha, pego um copo de água, passo um café, sento para tomar o café: “Nossa senhora! Que canseira.” De onde vem tanto cansaço se estamos em casa, nos exercitando menos, com trajetos menores e supostamente mais conforto ?

Para responder este MISTÉRIO é preciso reconstituir a cena do crime mais detalhadamente:

Acordo, passo a mão no celular, desligo o despertador, a luz do celular já mira meus olhos, abro o instagram e verifico as métricas, acabo me distraindo no feed, volto a mim, aproveito e verifico as mensagens do whatsapp, respondo as mais urgentes. Levanto da cama vou até a cozinha pego um copo de água, penso em como começar o conteúdo nos stories, pego os utensílios para o café, faço uma foto, passo o café e faço a legenda tudo ao mesmo tempo sento para tomar o café a xicara numa mão o celular na outra.

Não é a toda o meu cansaço ou o seu. Nossa atenção está cada vez mais capturada por inúmeros artifícios milimetricamente planejados para nos atrair. E o confinamento que a situação de saúde exige intensificou nosso contato com a realidade virtual. E se você também trabalha com teatro sabe que a arte e as redes sociais estão em relacionamento sério.

Na posição da artista (que quero ser) questiono–me como propor novos formatos que sejam um alento em meio a tantos estímulos. Como sujeito que desfruta e frui da obra artística penso e repenso qual lingagem me serviria agora.

Poucas conclusões. O que eu preciso é de silêncio.

Imagem de tela com letras e códigos remetendo a programação informática
Photo by Ilya Pavlov on Unsplash

Inegável a revolução:vivemos uma virada na produção cultural. A popularização das redes e suas tecnologias possibilitou a democratização dos meios de produção de conteúdo e informação. Hoje quem veicula o noticiário é o cidadão comum que comenta as informações do dia em suas redes; escritores são revelados através de blogs e é possível roteirizar, produzir e editar um vídeo usando um telefone. Teoricamente quem era público pode assumir a produção de conteúdo e, por um lado, isto é fantástico.

Seguindo compasso de seu tempo, artistas procuram se reinventar, buscam nas plataformas digitais o amparo para dar continuidade em suas carreiras e projetos. Linguagens são criadas e perguntas não param de surgir (como bem colocou Fernando Pivotto em seu texto “Curta, Comente e Compartilhe”.).

A união da arte com as redes já é uma realidade e transformou nossa história. Ainda assim precisamos insistir em um ponto: o efeito estético da produção em massa. A democratização da internet seria revolucionária se não estivesse apenas a serviço do capitalismo.

O que assistimos, na prática, são milhares de pessoas replicando falas, imagens, áudios todos os dias. Diariamente eu assisto a dezenas de vídeos de pessoas abrindo e fechando a mandíbula enquanto um áudio emite uma fala. Exatamente como marionetes.

Se o maior problema que temos hoje é o direcionamento de nossa atenção, a questão da presença está gravemente comprometida. Porque é dela que se trata a obra de arte: da presença e das relações estabelecidas.O incômodo é grande, porém a crise proporciona movimento, não é?

Tenho por aqui pensado em algumas ações que podem trazer a arte para dentro das nossas casas e ao mesmo tempo nos dar o espaço tão necessário da “vida offline”. Algumas delas estão listadas logo abaixo e você pode experimentar também. Fica o convite e eu adoraria saber como isso reverberou pra você!

Talvez o momento seja justamente oportuno para estreitar as relações entre arte e vida e fazer da própria existência a “plataforma” para sua obra. Que tal?

Proponho aqui pequenos dispositivos (inspirados nas práticas performativas) para serem realizados no decorrer de um dia e espero que eles te tragam uma maior reconexão consigo mesmo e com a realidade concreta de nosso tempo.

Vamos lá?

1- Dance ruídos:

Ao acordar, procure ouvir os sons do ambiente começando pelo lugar onde você está e expandindo sua audição para longe, chegando na rua, nos sons da cidade.

A cada som que você ouvir reaja com micro ou macro movimentos em uma dança que te impulsione o levantar da cama.

2-Sente-se em um lugar inusitado:

Homem de óculos lendo um livro. Ele está sentado no chão de uma biblioteca no espaço entre duas estantes cheias de livros.

Experimente sentar em um lugar que você nunca testou e ,de preferência, que não seja feito para este fim: pode ser o chão, pode ser uma bancada, pode ser até sentar-se em uma parede com as costas no chão ou usar uma cadeira de ponta cabeça. Use a imaginação!

Enquanto estiver nesta ação escute os seus batimentos cardíacos e conte-os até chegar no trigésimo som do coração. Quando terminar, observe as luzes e as cores que estiverem em seu campo de visão.

3-Apague a luz durante o banho:

via GIPHY

Tome banho no período da noite de luzes apagadas. Prepare-se deixando por perto o utensílios você utilizará e observe os pontos cortantes do espaço. Tome banho como sempre faz, sem acrescentar outros estímulos.

Aproveite para apurar seu olfato e as sensações táteis!

*******************************************************************

Espero que estas proposições  te auxiliem com algo essencial a todo artista: o cuidado de si e o apurar das sensações. Cada vez mais somos expostos a um mundo que nos impõe a mecanização e automatismo de hábitos e ações. Eu quis experimentar o caminho inverso.

Quanto mais atentos a estética de nossa existência melhor será nosso trabalho na arte.  Que estes exercícios abram portas para seguirmos adiante!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *